Entrevista com Pai Rubens Saraceni

No dia 24 de Outubro o jornal Fundamento esteve no Colégio de Umbanda Sagrada, em Belém, S. Paulo, Brasil, à conversa com… Rubens Saraceni, sacerdote, médium, escritor, fundador do Colégio de Umbanda Sagrada Pai Benedito de Aruanda e do Colégio Tradição de Magia Divina.

Fundamento: É um pioneiro a nıv́ el da psicografia de romances umbandistas. Até então, só havia romances espıŕ itas/ kardecistas. Quando e de que modo é que a psicografia entrou na sua vida?

Rubens Saraceni: Ela entrou de uma forma subtil, porque primeiro comecei a receber mensagens (…) e usava para a aula no centro (…). Então, sempre que tinha que dar uma aula, eu sentava e escrevia tudo o que me vinha à cabeça.

Eu fui juntando aquelas aulas, para depois reproduzir; isso começou em 88. Até 1990 eram sempre mensagens curtas, sempre orientadoras. Então foi em 1990 que eu sentei e comecei a escrever, a escrever. Pensei que era uma aula, aı ́não era uma aula e não parei de escrever até acabar o livro. (…)

Naquele primeiro dia, eu escrevi até às duas horas da manhã. Não queria parar com medo de perder o fio à meada. Mas quando eram duas da manhã e eu já estava cansado, escutei, “Pode ir dormir que amanhã retomarem

No outro dia, eu acordei, fiz as coisas que tinha que fazer no serviço e depois sentei e de facto começou no meio da frase (…) Aı ́ eu peguei confiança! Escrevia o tanto que Pai Benedito queria me passar e depois falava, “Agora vai fazer outras coisas!” (…)

F: Quanto tempo demorou a escrever os três livros? (O Cavaleiro da Estrela da Guia)

RS: Os três? Foram trinta dias, porque eu tinha que trabalhar também! De dia eu tinha o serviço e de noite o centro, né? Porque nós trabalhávamos quase todos os dias no centro: segunda, quarta e sexta atendimento ao público.

Naquele tempo eu tinha Centro lá no Jardim Ercy. Então foram dias de muita alegria, porque eu vi que não estava mais escrevendo mensagens. Aı ́ ele começou a falar mesmo dentro da minha cabeça.

F: Ele quem?

RS: Pai Benedito de Aruanda!

F: É sempre o Pai Benedito de Aruanda que lhe passa? É ele que coordena tudo. O coordenador da psicografia é ele!

F: E porquê tantos romances sobre Exus? Tem o “Guardião da Meia-Noite”, “O Guardião dos Caminhos- a História do Senhor guardião Tranca- Ruas”, “Guardião das Sete Encruzilhadas”, etc… Se o seu mentor é um preto-velho, porque é que ele lhe passa tantos textos sobre os Exus?

RS: Justamente! ele dizia e ainda diz que a linha da Esquerda é o calcanhar de Aquiles da Umbanda.

E é por aı ́que os adversários batem forte. A ideia que se tinha e se tem de Exu é que na África (…) no Candomblé mais tradicional é que é um Orixá. A ideia que se tinha dentro da Umbanda é que Exu era um demónio. (…)

Na Umbanda, ele não tinha um campo definido, era a linha da esquerda, que tanto podia fazer o bem como fazer o mal, há livros de umbandistas, Umbandistas!, associando Exu a demónios da Cabala Judaica, do Judaıśmo e do Cristianismo! (…)

Então, quando o Pai Benedito falou, “Temos livros de guardiões mesmo regentes de linhas porque quero passar a história e mostrar que eles não são demónios, são seres humanos que atuam na irradiação de Exu, espıŕitos humanos que atuam na irradiação de Ogum, de Oxóssi, quero falar desses Exus que se manifestam na Umbanda, todos eles passaram pela matéria, têm uma história; tudo bem que a história pode ser triste, mas são seres humanos, espıŕ itos humanos que têm de ser entendidos!

E o trabalho veio mesmo acontecendo, trazendo histórias desses guardiões (…) Então, o grande trabalho que Pai Benedito fez para a Umbanda foi resgatar justamente a esquerda! (…)

F: Falámos da esquerda, da entidade Exu. Pergunto agora sobre outras entidades: quem são os Mestres da Luz?

RS: Mestre da Luz é todo o espıŕ ito que tem uma responsabilidade com a humanidade de procurar sempre corrigir os erros e semear o saber onde impera a ignorância.

F: Pode dizer-se que na Umbanda existem mestres da luz?

RS: Sim, não são uma classe de espıŕ ito específica. Quando nos referimos aos mestres da luz são os espı́ritos superiores, orientadores.

Nesse sentido, não é uma classe especıf́ica, é uma forma de se referir aos espıŕ itos que já têm uma responsabilidade para com a humanidade e são orientadores uns de grupos menores, outros tanto de pessoas como espıŕ itos.

Um guia espiritual que sustenta um centro é um Mestre de Luz, tem um compromisso; não tem só o compromisso de trabalhar no médium dele, ele tem o compromisso de sustentar um ponto de reunião de médiuns (…)

Então, é um grau que se adquire no plano espiritual; eles são os preparadores do terreno para que as pessoas se reúnam e as suas forças possam se juntar e desenvolver um trabalho de auxıĺio ao semelhante. Então, todo o guia com um grau de sustentador de trabalho é um Mestre de luz. A Luz é o conhecimento, é o saber, a Luz é Deus, é o Orixá! (…)

F: E o colégio de MAGIA DIVINA? Como surgiu?

RS: Nós fizemos uma separação, porque tıń hamos os livros, os romances tipicamente umbandistas para criar uma literatura umbandista e criou – se. Graças a Deus e ao Pai Benedito teve sucesso. Hoje tem muitos médiuns escrevendo romances psicografados dentro desse universo religioso umbandista.

(…) ninguém pode tirar o mérito ao Pai Benedito, porque antes isso não existia. (…) Então nós temos uma literatura umbandista que começou com Pai Benedito, mas temos um estudo voltado para a religião que fundamenta tudo o que   nós praticamos, que começou também com ele, através dos livros didáticos. E paralelo a esse trabalho, em 1999, começou o ensino da magia divina com a magia das velas, a Magia das Sete Chamas. (…)

Então, a magia, na época, foi uma orientação para formar uma egrégora de 7.777 magos emanados numa egrégora para dar base ao que viria depois. Eu criei o Colégio da Magia à parte do Colégio de Umbanda.

O Colégio da Magia cuida da magia e o da Umbanda cuida da Umbanda.

F: Mas na Umbanda também há magia!

RS: Tudo o que você faz dentro de um centro de umbanda é magia e é realizador. A defumação é realizadora, o ponto cantado é realizador porque movimenta forças, a defumação movimenta forças, o ponto riscado movimenta forças, a dança de um guia espiritual movimenta forças, então na Umbanda tudo é mágico, tudo!

Só que dentro de um sistema religioso. É isso que destaca ela e faz com que seja muito esmagada. Porque chega uma pessoa com a sua força espiritual, começa a incorporar o seu guia e aquele que traz uma mediunidade muito aflorada daqui a pouco tempo está atendendo pessoas e o guia está fazendo maravilhas.

Aı ́vem alguém e diz: “Não! Quem é você que entrou agora e já está querendo atender os outros, está ajudando os outros?” Esquece que quem está ajudando é o guia espiritual e que não começou no dia em que aquele médium começou.

O guia espiritual tem um histórico de séculos de ajuda à humanidade, não o médium. O médium pode ter um dia de Umbanda, tem gente que entra a primeira vez, já incorpora, já dão charuto, água e já fica dando consulta. Não é o médium, é o guia que tem de ser visto ali.

O médium não precisa de ter preparo, o guia tem, já vem preparado. O médium precisa de ser preparado sim para entender tudo aquilo. (…)O médium tem de ser preparado e ensinado para se situar nisso tudo e na hora de incorporar ele se doar por completo, para aı ́sim, o guia trabalhar.

Querem confundir o médium de umbanda que é o que cede o corpo com o do Candomblé, que tem que passar por muitas preparações porque lá ele está incorporando o Orixá dentro de um ritual religioso. O Orixá que incorpora nele não vai dar consulta. (…) Tudo bem que os guias já entraram dentro do Candomblé aqui no Brasil, porque os médiuns umbandistas que foram para lá levaram junto os seus guias.

F: A Umbanda recebeu do Candomblé e agora está o Candomblé a receber da Umbanda!

RS: É , é a troca! É a restituição do bem, porque o Candomblé forneceu os Orixás, o conhecimento para a Umbanda e a Umbanda está pagando, enviando os guias espirituais para o Candomblé e no futuro vai estar tudo assim (ligando as mãos), tudo assim, porque a divindade não é uma só? É Orixá, não é?

Se é Orixá no Candomblé, é Orixá na Umbanda! Orixá está regendo tudo! Tudo é o mesmo Orixá! É o mesmo Oxalá Universal, o mesmo Ogum Universal que está regendo tudo, apenas está separado em duas formas diferentes.

Na Umbanda, cantamos, louvamos os Orixás e trabalhamos com os guias; no Candomblé cantam e louvam o Orixá e giram incorporando o Orixá lá no Xiré.

A troca vai continuar crescendo cada vez mais porque tudo é Orixá. (…) o mesmo nome que davam em Iorubá para Exu é o mesmo nome na Umbanda. É o mesmo Exu regendo tudo, todas as qualidades de Exu no Candomblé e todos os Exus de Umbanda. Se a divindade é uma só, então a divisão está sendo feita por nós e não do lado de lá!

F: Por falar em qualidades, Oiá e Egunitá são qualidades de Iansã?

RS: Não! É tudo diferente! Veja, nós temos sete irradiações divinas, temos sete linhas de Umbanda que regem a criação. (…) Se tinha sete linhas de umbanda, tinha mais Orixás sobrando que as sete linhas.

A grande briga do passado foi essa: as várias escolas de Umbanda no passado tinham dificuldade em achar tantos Orixás em sete linhas, porque diziam que Ogum era uma linha, Oxóssi era uma linha, Oxalá era uma linha, Iemanjá era uma linha. Assim, começaram a sobrar Orixás. (…)

Então trocavam, tiravam um Orixá e colocavam outro e a espiritualidade mantinha esse segredo fechado a sete chaves.

F: A sete chaves!!!

RS: Viu? O simbolismo está em tudo! Quando Pai Benedito começou a passar alguma coisa sobre as sete linhas, quem é que ficou surpreso? Eu primeiro, porque estava escrevendo quando ele falou,”Fillho, as sete linhas não são sete Orixás,

Num paıś de brandos costumes a que comummente nos referimos como “Jardim da Europa à beira mar plantado” (2) raramente paramos para pensar que valores como igualdade de direitos, racismo ou intolerância, não são um dado adquirido em grande parte do nosso mundo. Não quer isto dizer que sejamos verdadeiramente tolerantes, ou mais tolerantes do que ingleses ou alemães.

A história diz-nos que na lenta marcha dos séculos até aos dias de hoje tivemos tantos perıó dos negros como as outras nações do planeta. Outros tempos, outras mentalidades, dirão alguns!
A verdade é que não está provado que sejamos mais tolerantes, que não tenhamos matado tanto como as outras nações conquistadoras, que toleramos melhor os pretos ou que a nossa inquisição tenha sido melhor do que a espanhola.

Sim, certo. A nossa foi a revolução dos cravos, mas… Vem toda esta questão a propósito de um momento importante para os Umbandistas brasileiros: a publicação, a 17 de Maio de 2012, no Diário Oficial da União (equivalente ao nosso Diário da República), da Lei Nº 12.644, de 16 de Maio de 2012 que instituiu o DIA NACIONAL DA UMBANDA a ser comemorado anualmente a 15 de Novembro.

Segundo um artigo de Sandra Santos, Presidente da AUEESP, publicado na edição nr. 33 do Jornal Nacional de Umbanda, para este desfecho favorá- vel contribuiu largamente a análise de uma das relatoras do Senado Brasileiro que menciona o facto de se tratar de uma religião nascida no Brasil, a expressiva difusão da Umbanda no seio da população brasileira, bem como o facto de se tratar de um culto eminentemente sincrético (= sistema religioso que combina os princıṕ ios de diversas doutrinas) que “não se incompatibiliza, inclusive, com a filiação a cultos mais tradicionais, tais como o catolicismo e o espiritismo kardecista”.

Depois das notıćias constantes que nos chegavam num ritmo quase semanal sobre a intolerância religiosa e racial, informando da perseguição policial sobre casas de culto e seguidores das religiões de raiz afrobrasileiras e depois de todos os esforços destas comunidades para se organizarem social e politicamente, este resultado é verdadeiramente inspirador.

Apetece repetir as palavras de Gandhi quando disse- “be the change you want to see” (sê a mudança que queres ver) ou, em linguagem mais moderna são sete irradiações divinas e em cada irradiação estão todos os Orixás: na Irradiação da Fé está Oxalá regendo o ponto positivo e um Orixá feminino (…) que polariza nessa irradiação divina e está no outro extremo. Só que esse Orixá não tem nome em iorubá, não tem nome em português.

Esse Orixá rege as eras, os ritmos, os ciclos da criação, está associado ao Tempo, (…) os ciclos da vida do ser humano, o ciclo de dias, de uma semana. É nesse sentido de tempo que este Orixá faz par com Oxalá, na chamada Irradiação da Fé. Ele rege a Fé do ser humano, Ela direciona a religiosidade.

Então, ele falou,”Nós precisamos de dar um nome, qualquer nome para que esse pólo receba e as pessoas saibam a quem se dirigir! Como não tem nome, coloque aı́ Oiá !” Depois, chegou no polo da Justiça Divina, que é a Irradiação de Xangô, (…) a quarta Irradiação na linha da Umbanda, ela tem Xangô assentado e no outro polo tem outra divindade feminina que também não recebeu nome em iorubá. Não tem o nome revelado.

Ela entra naquela classificação dos Orixás não nomeados. E aı ́ele falou, “Tem um nome” (…) “Por empréstimo, pegue Egunitá! A divindade Iansã permite, porque essa qualidade (…) é muito semelhante a essa divindade do fogo que faz par com Xangô, porque essa divindade do fogo é purificadora dos negativismos.

E a Iansã Egunitá é que faz esse trabalho. (…) Então, usou-se o nome dela por empréstimo para dar o nome a essa divindade que não tinha nome e não tem até hoje revelado. (…) E por mais que eu tenha falado na época que eram nomes emprestados, muita gente se fez de surdo!

F: Será que entenderam?

RS:
 Entendeu sim! Não tem besta nesta histó- ria! É má intenção! Tudo mal-intencionado! Estava escrito com todas as palavras: a 1ª irradiação divina, a irradiação da Fé, na regência do pólo passivo, masculino, positivo está Oxalá; no pólo negativo, feminino e ativo está uma divindade não nomeada a quem estamos dando, por empréstimo, o nome de Oiá! (…) Está escrito em todos os livros, aparece o nome Egunitá ou Oiá, apareceque este nome está substituindo uma divindade não nomeada dentro da teogonia iorubana. (…)

Isso está tudo explicado nos livros (…). (…) Está escrito em todos os livros, aparece o nome Egunitá ou Oiá, aparece que este nome está substituindo uma divindade não nomeada dentro da teogonia iorubana.

Os que aceitaram estão sendo ajudados, cantam para Oiá, vem uma pilha gigantesca de espıŕ itos que se manifestam numa gira, quando cantam para Oiá, como quando cantam para Iansã, vêm as Iansãs, as caboclas; se cantam para Egunitá vêm outras, são seres diferentes pertencentes a dimensões diferentes.

(…) Isso está tudo explicado nos livros (…) No “Código de Umbanda” explica, na “Génese…” explica! Só que os que leram e assimilaram e foram atrás, viram que é verdadeiro (…) Mas teve os outros que já tinham livro escrito e que não tinha nada daquilo, principalmente autores que( e eu falo com a boca cheia!) autores que tinham escrito livros que tinham fundamentos, viram tudo aquilo e falaram, “E agora? Vai tudo por água abaixo! Esse aqui enterra o meu!” E   enterrou!(…)

Estou cansado de ver pessoas malintencionadas falar de uma obra que trouxe tanta respeitabilidade à Umbanda! E é isso!

F: E assim terminamos esta conversa com Rubens Saraceni que tão gentilmente nos recebeu e acarinhou! Apesar de tudo o que foi dito, podemos dizer que soube a pouco, pois a vontade era de ficar horas conversando com este Mestre de Umbanda que, através dos seus livros, dos seus cursos e de toda a sua obra, tanto tem contribuıd́o para a formação dos médiuns umbandistas e para o esclarecimento do público em geral sobre os fundamentos e práticas da nossa querida Umbanda!

Bem haja, Pai Rubens Saraceni!

Mary Nogueira 


JORNAL O FUNDAMENTO 10
Pgs. 04, 05, 06
Leia mais aqui:
http://www.atupo.com/jornal/Fundamento_10.pdf

2 comentários em “Entrevista com Pai Rubens Saraceni

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