Almas eletrônicas

Almas eletrônicas

Luís Paulo Domingues

O professor e escritor Luiz Vitor Martinelli tem uma teoria sobre a “vida” dos objetos. Uma vez, na Unesp, ele me explicou que os objetos têm personalidade – obviamente atribuída por nós, humanos. E ainda me contou que fez uma experiência sobre o assunto. Deixou de cuidar de alguns objetos que tinha em casa e, em pouco tempo, segundo ele, eles  começaram a se autodesmontar. É compreensível: tudo o que o homem faz, se deixado inerte, tende a voltar ao estágio inicial (ou melhor, ao estágio anterior ao contato com o homem). Mas o Luiz Vitor tratava aquilo de modo metafísico. Eu não acreditava, até que meu amigo Afonso me falou: “- Um arquivo do computador nunca some. Mesmo quando você joga o arquivo no lixo e depois deleta o lixo, ainda fica um registro do que esteve lá. É como se fosse uma pequena alma do arquivo.” Também não dei muita importância, mas na semana passada as tais almas começaram a aparecer através do meu pen drive. Eu havia gravado vários álbuns de música nele. Uma das pastas estava com um disco da banda Bread, que eu descobrira recentemente. Descobri também que o Bread é uma daquelas bandas dos anos 70 que só emplacaram um (1) sucesso e têm um monte de sonzinhos melados. Apaguei o Bread do pen drive e coloquei um disco do Egberto Gismonti no espaço que sobrou. Qual não foi minha surpresa quando, no dia seguinte, lá estava o Bread no lugar do Egberto Gismonti. E o pior: no visor do aparelho de som do meu carro aparecia “Egberto Gismonti”. Mas tocava Bread.

Fiquei muito intrigado. Coloquei o pen drive no meu lap top e nada. Nenhum sinal do Bread. Havia apenas a pasta do Egberto Gismonti, com Egberto Gismonti dentro. Testei as músicas no lap top e eram do Egberto mesmo. Voltei para o carro e tentei de novo. É incrível, mas o Bread estava lá novamente, e nada do Egberto Gismonti. Comecei a acreditar no Luiz Vitor e fiquei imaginando que tipo de poder meu carro teria para fazer plasmar a presença do som da banda Bread apenas dentro dele e fazer sumir o Egberto Gismonti. Fiz várias conjecturas: “E se for pra sempre? Vou ter que ouvir isso? Será que adiantaria trocar de pen drive? É claro que deve ser um problema dos chips que armazenaram informações de modo errado. Não pode ser a “alma” do arquivo, isso é ridículo.” Tive que dormir com a dúvida. Mas no dia seguinte, achei o bendito Egberto Gismonti. Ele estava em outra pasta que, por milagre ou defeito – não sei mais -, estava escondida dentro da pasta que fora apossada pela “alma” da pasta do Bread. Na verdade, o Egberto Gismonti estava onde sempre teve que estar: dentro de sua própria pasta. O Bread é que se recusava a sair. Descobri isso sem querer. Ao invés de apertar o botão para mudar de pasta, como fazia sempre que o maldito som do Bread chegava, decidi avançar música por música dentro da pasta. Depois da última música do Bread, veio uma subpasta com todas as músicas do Egberto Gismonti. Subpasta esta que, juro, não foi criada por mim. A pasta do Egberto continuava possuída pelo Bread mas, pelo menos, o Egberto estava lá também. Escondido, mas estava.

Que tipo de conflito – se é que podemos chamar assim – haveria pela posse da pasta? Afinal, o Bread já havia sido o “dono” daquele lugar no pen drive, mas jamais da pasta do Egberto Gismonti. Meu pen drive é daqueles pequenos, de 500 megas. Cabem no máximo sete discos. Como que agora continuam cabendo os sete discos que eu escolho e (mais) o Bread? Como pode tocar sem estar lá? Ouço o som do Bread, mas passa o nome do Egberto no visor e quando toca o Egberto, o nome das músicas (do Egberto mesmo). No princípio, decidi que não iria revelar isso a ninguém. Guardei silêncio sobre o fato. Convivi calado com essa “invasão” eletrônica (ou metafísica). Mas acabei contando para minha amiga Laura, que respondeu baixinho, apontando para a estante do som: “-Aquele meu pen drive também está possuído. O som que toca aqui é Cat Power, mas em outros aparelhos é Zeca Pagodinho.”  Obs: tenho o pen drive para provar.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião

via Almas eletrônicas – Jornal da Cidade.

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